07 de agosto de 1990: data inesquecível para Camilo. Não era uma data apenas importante para ele mas para todos os amantes do rock ou quem era, por natureza, sensível à emoções. Uma data amarga: A morte de Agenor de Miranda Araújo Neto, o Cazuza.
Por isso, Camilo estava triste. Triste porque a exatos dezenove ano um dos seus ícones emocionais morrera : Cazuza! Cazuza cantor, Cazuza Poeta, Cazuza profeta, Cazuza-emoção.
Quando o cantor morrera, Camilo tinha 30 anos. Chegou a chorar escondido. Tinha vergonha — como até hoje— de chorar em público, principalmente em frente à esposa, mulher dura e insensível às emoções ou romantismos.
Tímido e procrastinador pela própria natureza, ele se espelhava na figura quase mítica de artista. Cazuza era um desses ícones. Michel Jacson também. Cazuza oferecia as ferramentas emocionais para que ele, nos momentos de prazer ou de depressão pós briga ou das insensibilidades amorosas da com a mulher, se regenerasse emocionalmente. Não se sentia livre para expressar emoções ou idéias revolucionárias, por isso se escorava na livre expressão do Cazuza. Queria ser um exímio dançarino. Como era uma negação para a dança, admirava Michael Jacson e o tinha como a parte que o completava.
Mas neste 07 de agosto, Camilo se sentia tão down a ponto de tormar analgésico como se esse fosse a panacéia para acabar com a tristeza. Agora estava órfão de ícones. Tudo bem que eram imortais, que a arte de ambos perduraria. Mas sentia como uma criança de cinco anos órfão de pai e de mãe. Hoje, seria pretenso enterro de do rei do pop. Mais uma dor!
Tentava esconder da mulher e da filha o sentimento de pesar que lhe atormentava.
Taciturno, tomou o café. Apenas a filha notou um certo ar de tristeza na fisionomia do pai.
—Pai, você está bem? Parece abatido, doente?
—Por que haveria de estar triste? — Respondeu rancoroso e cabisbaixo.— estou indisposto. Por isso não vou trabalhar.
—Pai , que o senhor tem?
—Preguiça!
—Mas pai...
Saiu da mesa sem dar atenção à filha. Dirigiu-se ao computador, abriu o Google notícias. Nada sobre Cazuza! O mundo só lembrava de Michael .
Pegou o velho disc man, um livro de poesia de Álvares de Azevedo.
Saiu de casa sem dizer nada. Passou em uma floricultura, comprou duas coroas de flores. Se morasse no Rio de Janeiro, iria ao Cemitério São João Batista e à Praia do Arpoador.
Dirigiu-se à Praça da República onde fica o busto do Poeta Álvares de Azevedo. Depositou uma coroa de flores do lado esquerdo do busto em homenagem a Michael Jacson com a frase "Adeus Michael” e do outro lado uma em homenagem a Cazuza. “Cazuza forever”. Posicionou em frente a estátua, abriu o livro Lira dos Vinte Anos e pôs-se a declamar:
"Adeus, meus sonhos, eu pranteio e morro!
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh'alma na treva agora dorme ... "
Não levo da existência uma saudade!
E tanta vida que meu peito enchia
Morreu na minha triste mocidade!
Misérrimo! Votei meus pobres dias
À sina doida de um amor sem fruto,
E minh'alma na treva agora dorme ... "
Por Vald Ribeiro
